- Esta semana decidi reflectir sobre a importância e evolução do desenho na infância. Pois fui-me apercebendo que a maior parte das crianças adora fazer desenhos, repetindo várias vezes, ao longo do dia, cheias de expectativa…“Está lindo?” As produções são as mais variadas…carros, casas, árvores...
- Para a criança, o desenho é, em primeiro lugar, um jogo com o qual se diverte e do qual necessita para crescer e se desenvolver de forma equilibrada e global. Desde que cria o primeiro traço, coloca em jogo os seus sentimentos, os seus desejos, as suas emoções positivas e negativas, dando-lhes saída, elaborando-as. Alivia-se tenções, descarregando a sua agressividade, o seu amor e o seu ódio de uma forma especialmente útil e saudável: sem causar dano a ninguém, não gerando sentimentos de frustração ou culpa. O jogo compõe-se de gestos que, quando termina, desaparecem, mas o desenho deixa a marca que permanece e com ela a constatação do seu poder criador. Provavelmente, esta será a sua primeira e mais clara experiência de criação.
- Mais do que a representação em si, o desenho reflecte os receios, conflitos e desejos do seu produtor, tanto através dos elementos representados, como através do modo como são representados (tamanho, riqueza de pormenores, localização na folha, sequência de registo, perfeição) e como são coloridos, o que leva à conclusão de que os factores envolvidos no acto de desenhar vão desde a discriminação perceptiva, ao nível de desenvolvimento cognitivo, organização espacial e coordenação motora.
- Para explicar a evolução do desenho na infância, baseei-me, essencialmente, em Luquet, o qual define o desenho infantil em termos de Realismo, considerando-o essencialmente realista, embora não mantenha as mesmas características ao longo da sua evolução. Assim, Luquet distingue quatro fases:
- Realismo fortuito (2 - 3 anos)
- Realismo falhado (4 - 5 anos)
- Realismo intelectual (5 - 7 anos)
- Realismo visual (8 - 12 anos)
- É importante referir que, embora as crianças passem por estas etapas em idades semelhantes, não há dois indivíduos que façam uma evolução idêntica. Tal como em qualquer vertente do desenvolvimento humano, também a evolução do desenho infantil não se faz por fases estritamente delimitadas, uma vez que estas se podem sobrepor e até mesmo avançar ou retroceder ao longo do processo. Variam no momento do aparecimento, na duração e inclusivamente na clareza com que se manifestam.
- Antes de desenhar ou criar formas para transmitir uma mensagem, a criança atravessa, no decurso do seu desenvolvimento, um período de manipulação e experimentação dos materiais. Pouco a pouco afirma o seu poder sobre essas formas, na medida em que se torna capaz de as reproduzir.
- Durante a primeira fase do realismo, o realismo fortuito, a criança é induzida pela imitação dos adultos, começando por imitar as suas actividades, ignorando a sua finalidade. Neste período, a criança observando nos outros a existência da faculdade gráfica, não julga possuí-la também. Durante um tempo mais ou menos longo, limita-se a fazer traços sem qualquer objectivo. No entanto, a criança começa a notar uma certa analogia entre alguns dos seus traçados e um objecto real, embora seja obrigada a reconhecer que a semelhança do seu traçado se produziu de modo fortuito. Um mesmo traçado pode receber sucessivamente várias interpretações.
- A criança adquire a faculdade gráfica total quando a sua produção reúne todos os elementos do traçado propriamente dito: intenção, execução e interpretação correspondente à intenção. A partir deste momento, anuncia frequentemente o desenho que vai fazer, antes de o executar. O realismo fortuito transforma-se, assim, em realismo intencional devido a uma série contínua de transições.
- Segundo Luquet, uma vez chegado ao desenho propriamente dito, a criança quer ser realista, embora não o consiga fazer, uma vez que não é, ainda, capaz de dirigir e limitar os seus movimentos gráficos de modo a dar ao seu traçado o aspecto que deseja (realismo falhado). Em muitas ocasiões, a criança quer traçar um quadrilátero, para representar uma casa, mas este é transformado nas figuras mais variadas. A intenção realista encontra outro obstáculo, não de ordem gráfica, mas psíquica.
- Nos primeiros desenhos, a criança só reproduz um número muito restrito de pormenores ou elementos efectivos do objecto representado, embora não ignore a sua existência. Quando enuncia verbalmente os elementos de um objecto real, a criança manifesta o seu conhecimento sobre a realidade. No entanto, no momento de desenhar, como sabe da existência dos vários pormenores, não tem a preocupação de os representar.
- Progressivamente, a criança começa a manifestar a intenção de representar todos os pormenores que conhece e fá-lo à medida que vai pensando. A ordem pela qual os representa, corresponde ao grau de importância que a criança lhes atribui, continuando a acrescentar, tanto quanto a sua atenção suporta, pormenores já desenhados sobre um novo pormenor.
- A criança pretende representar, nos seus desenhos, o que existe de facto. Os defeitos que encontramos são devidos ao facto de, no momento em que a criança pensar num desses pormenores para apresentá-los, só pensa pô-lo no seu desenho, esquecendo-se do que já traçou. Esta é a característica essencial do realismo falhado: incapacidade sintética. Em muitos desenhos, as dimensões de diversos elementos não tem nenhuma correspondência com as relações dos mesmos pormenores na realidade. Desenhos em que senhores têm cabelos mais compridos que as pernas, podem ser resultado da importância da criança para interromper os traços no momento desejado. Vai existindo uma progressão nesta fase: a criança começa já a pensar nos pormenores que desenha e, ao mesmo tempo, nos seus desenhos. O progresso efectua-se por gradações quase insensíveis e compõe-se de períodos de estagnação e mesmo de regressão.
- O realismo intelectual caracteriza-se pela intenção da criança de representar no seu desenho todos os elementos reais do objecto, mesmo os invisíveis ou abstractos que só têm existência no espírito da criança. Recorrendo espontaneamente à pictografia, a criança começa a acrescentar legendas aos seus desenhos. O realismo intelectual leva ao emprego de processos variados como a incapacidade sintética (destacar os pormenores de um desenho que na realidade se confundem e se ocultam), a transparência (colocar em evidência os elementos invisíveis de um objecto) e o rebatimento (representação dos objectos em linha recta).
- O realismo visual exclui os diferentes processos impostos pelo realismo intelectual. Assiste-se a um desaparecimento gradual desses processos. À transparência segue-se a opacidade, a supressão dos pormenores que são objectivamente invisíveis e o rebatimento é substituído pela perspectiva que os equivale no realismo visual. Por fim, é fundamental que o educador tenha uma atitude de aceitação dos trabalhos gráficos da criança, e que esta se sinta compreendida nas suas sucessivas tentativas de comunicação. É importante apelar à necessidade da motivação e à importância que tem para a criança a passagem por cada uma das várias etapas de forma gradual, permitindo-lhe, não só o desenvolvimento maturativo necessário à fase seguinte mas, também, que a criança se divirta, que brinque, que goze e aproveite todas as suas potencialidades, promovendo uma auto-estima positiva com base na construção de relações de confiança (em si própria, nos outros e no meio que a rodeia), e desenvolvendo o seu espírito critico de forma saudável e harmoniosa.
1 comentário:
Antes demais queria dar os meus Parabens pelo brilhante e enriquecedor blog. Gostaria ainda referir que a reflexão sobre a importancia do desenho é bastante pertinente, interessante. Gostaria se possivel saber a bibliografia consultada, para uma possivel leitura, cujo o tema despertou-me curiosidade. Muito obrigada e continuação de bom trabalho.
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